Tróia, século XII a.C.
O cerco a Tróia pelos gregos está a chegar ao fim. Os gregos elaboraram um plano para subverter as defesas dos troianos. Astutos construíram um cavalo gigante de madeira e depois fingiram partir, deixando o cavalo nos portões de Tróia como uma aparente oferenda à deusa Atena. Os troianos, acreditando que o presente elevaria a protecção da deusa, levaram-no para dentro dos portões da cidade.
Mas é um truque. Ulisses e seus homens estão escondidos dentro do cavalo e emergem durante a noite para abrir os portões e deixar entrar o exército grego, que voltou para tomar a cidade. Os Troianos não têm sequer oportunidade de aprender com seus erros; os gregos saqueiam a cidade e massacram seus habitantes.
A lição de história, registada no conselho de “cuidado com os gregos que trazem presentes”, é que não devemos baixar as nossas defesas quando um possível adversário nos oferece ajuda.
Hoje, esse conselho é tão útil como sempre, mas os trapaceiros de hoje vestiram o manto da filantropia e os seus cavalos de Tróia não são estátuas de madeira, mas organizações não governamentais que oferecem “ajuda” a nações estrangeiras.
A amarga verdade é que, num número surpreendente de casos, as ONG são os cavalos de Tróia dos Estados.
Em 2015, o Quirguistão tomou o que à primeira vista pode parecer uma medida surpreendente: cancelou um tratado de cooperação com os EUA que estava em vigor desde 1993. O tratado concedeu incentivos fiscais e privilégios aduaneiros a organizações como a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional. (US Agency for International Development (USAID))
A reacção dos meios de comunicação ocidentais habituais foi rápida e previsível: o Quirguistão perdeu a cabeça. Ou, para ser mais preciso: é tudo culpa de Putin (ver em http://thediplomat.com/2015/07/is-russia-behind-the-u-s-kyrgyzstan-diplomatic-row/) .
Mas não se preocupe, os EUA continuarão a ajudar o Quirguistão de qualquer maneira, quer gostem ou não.
Mas o Quirguistão não é o único país a reprimir a “ajuda” de ONG estrangeiras. Nos últimos anos, uma série de países, incluindo a Rússia, a China, a Índia,o Egipto e outros aprovaram leis que impõem controlos mais rigorosos às operações destas organizações dentro das suas fronteiras.
Então, o que se passa? Porque é que todos estes países estão a expulsar todas estas entidades não-governamentais e quase-governamentais sediadas nos EUA? Por que é que eles se opõem à caridade e à ajuda?
A resposta não é difícil de entender. Estas organizações são cavalos de Tróia: concebidas para parecerem presentes, mas contendo alçapões secretos através dos quais forças ocultas podem entrar no país e minar secretamente os governos em questão. Esta explicação só soa estranha para aqueles que não olham além dos nomes das organizações e não têm ideia do seu histórico de operações.
A USAID, por exemplo. Criada em 1961 por ordem executiva, é uma agência governamental dos EUA que procura “acabar com a pobreza extrema e promover sociedades democráticas e resilientes, ao mesmo tempo que promovemos a nossa segurança e prosperidade”. Então porque é que o Presidente Morales os expulsou da Bolívia em 2013? Porque ele é louco e irracional? Ou porque a USAID executou um programa através do seu chamado Gabinete de Iniciativas de Transição, que forneceu 10,5 milhões de dólares de financiamento para o “Fortalecimento das Instituições Democráticas” em todo o país, incluindo em áreas bastiões da oposição? Foi a paranóia da parte de Morales, ou apenas o reconhecimento de que a retórica do “Fortalecer as Instituições Democráticas” é um eufemismo velado para “derrubar o governo”, exatamente como documentos diplomáticos provaram (https://wikileaks.org/plusd/cables/06CARACAS3356_a.html) que foi o caso do programa da USAID com nome idêntico na Venezuela?
Deverão os governos confiar na USAID depois de ter sido revelado que a agência criou secretamente a sua própria rede de comunicação social em Cuba com o propósito expresso de minar o governo de Castro? Ou quando foi revelado que a USAID tinha enviado uma equipa de agentes a Cuba sob o pretexto de “programas cívicos e de saúde” para incitar a rebelião entre os jovens, incluindo a criação de um falso workshop de prevenção do VIH que a própria agência descreveu como a “desculpa perfeita” para “identificar potenciais atores de mudança social?” Ou quando foi revelado que a agência tinha tentado (e falhado) infiltrar-se na cena hip-hop de Cuba “para quebrar o bloqueio de informação” e desencadear um movimento juvenil de “mudança social” no país?
Ver também USAID Attempt to Co-opt Cuban Hip-Hop Scene Fails
Mas este problema das ONG/cavalo de Tróia não está de forma alguma confinado à USAID e às suas organizações associadas. Vejamos o National Endowment for Democracy (NED) como outro exemplo.
A história oficial é que a NED foi criada em 1983 através dum acto do Congresso, a fim de “encorajar o estabelecimento e o crescimento do desenvolvimento democrático” em países-alvo em todo o mundo, em linha com os objectivos da política externa dos EUA.
A verdadeira história é que a NED foi criada expressamente como uma fachada para financiar as atividades da CIA dentro dos países-alvo, um facto de que Allen Weinstein, um dos membros do grupo de estudo que levou à fundação da NED, se gabou abertamente no The Washington Post: “ Muito do que fazemos hoje foi feito secretamente há 25 anos pela CIA”, disse ele. Ainda mais flagrante é a admissão do então Diretor da CIA, William Casey, que escreveu um memorando à Casa Branca defendendo a criação da NED, mas alertando que “nós aqui [na CIA] não deveríamos estar à frente do desenvolvimento de tal organização, nem queremos parecer um patrocinador ou defensor.”
A participação da NED em campanhas secretas de desestabilização rivaliza com a da USAID e, tal como a USAID, envolve demasiadas operações para as detalharmos todas aqui. Os pontos baixos incluem:
- Financiar o programa “Projecto Democracia” que se tornou o núcleo do governo secreto de Oliver North durante os anos Irão-Contras.
- Manipular as eleições na Nicarágua em 1990 para expulsar Ortega e os sandinistas.
- Derrubar os governos da Bulgária em 1990 e da Albânia em 1991.
E apoiar todas as grandes revoluções coloridas do período moderno, desde a Revolução Rosa na Geórgia até a Revolução das Tulipas no Quirguistão, desde a Revolução Laranja na Ucrânia há quase duas décadas à Maidan em 2014, do mal sucedido “Yerevan Elétrico” na Arménia às primaveras árabes, e muitos outros pelo meio….
Mas na Ucrânia… e este é um artigo interessante escrito pelo presidente do National Endowment for Democracy – ele é presidente vitalício – Carl Gershman. Eu sei que isso pode chocar o caro leitor, mas na verdade ele é trotskista.
Foi membro fundador do partido Social-Democrata trotskista dos EUA e escreveu um editorial no The Washington Post em Setembro de 2013 como presidente do National Endowment for Democracy. Ele disse: “A Ucrânia é o maior prêmio”. E mencionou que “a escolha da Ucrânia de aderir à Europa acelerará o desaparecimento da ideologia do imperialismo russo que Putin representa” e “Putin poderá encontrar-se no lado perdedor, não apenas na região, mas dentro da própria Rússia”. Portanto, o seu verdadeiro objectivo é a mudança de regime.
Estes tipos de operações com cavalos de Tróia foram usados centenas de vezes no passado e não há sinal de que certos estados estejam dispostos a abandonar o truque agora. Muito pelo contrário.
Funcionou durante a “Primavera Árabe”, quando até mesmo o The New York Times admitiu alegremente que os líderes dos protestos tinham “recebido treino e financiamento de grupos como o Instituto Republicano Internacional, o Instituto Democrático Nacional e a Freedom House” e o Departamento de Estado admitiu alegremente que gastou 50 milhões de dólares ajudando ativistas da região, organizados por meio de ONGs - cavalos de Tróia.
A fraude também funcionou na Síria, onde documentos revelados provaram que os EUA forneceram milhões de dólares de apoio a grupos de oposição no país desde 2006 através de uma variedade de ONG - cavalos de Tróia, como o Movimento para a Justiça e o Desenvolvimento.
Os "capacetes brancos", por exemplo, são uma construção propagandística e até mesmo grupos de socorristas como a “Defesa Civil da Síria” (fundada por um ex-oficial da inteligência militar britânica) foram usados como cavalos de Tróia para espalhar propaganda e fazer avançar a agenda dos EUA e dos seus aliados na sua tentativa de derrubar o Presidente Assad.
Sejamos claros: isto não quer dizer que todas as ONG sejam cavalos de Tróia. Não é verdade que todos os grupos ou programas que recebem dinheiro da USAID ou do National Endowment for Democracy ou de uma organização semelhante sejam, portanto, automaticamente um agente de mudança profunda do Estado. Não é assim que funciona a técnica do cavalo de Tróia.
Não, o que torna estas ONG tão eficazes como disfarces para operações de mudança de regime é que, na maior parte do tempo, fazem o que afirmam estar a fazer: prestam ajuda, assistência e caridade onde é necessário. É por esta mesma razão que os EUA e os seus aliados podem tão eficazmente difamar os cépticos das ONG como loucos.
Mas considere isto: em 1938, o Congresso dos EUA aprovou a Lei de Registo de Agentes Estrangeiros (FARA). Com a notável excepção da AIPAC, as ONG, os grupos de lobby e os indivíduos que representam um agente estrangeiro são obrigados a registar-se ao abrigo da lei e estão sujeitos a um maior escrutínio dos registos financeiros e de outras actividades.
A ironia é que o FARA é essencialmente o mesmo tipo de legislação que foi recentemente aprovada na China, mas quando os chineses o fazem, é uma loucura; quando o governo da Geórgia o tenta fazer é anti-democrático mas quando os EUA o fizeram,há 70 anos, foi apenas bom senso. Mais uma vez, a hipocrisia fica evidente para quem quer ver.
Se há algo de bom nisto é que o público está cada vez mais consciente destes tipos de atividades secretas. Talvez mais precisamente, as vítimas destas operações estão agora mais dispostas a enfrentar os EUA (e a sofrer a sua potencial ira diplomática), examinando, monitorizando, vigiando, regulamentando ou mesmo expulsando estes agentes do caos.
E agora, tal como os troianos há milhares de anos, o mundo está a aprender da maneira mais difícil que, por vezes, é melhor deixar um “presente” fechado.
CRÉDITOS
Original por James Corbett (2018)
Tradução, adaptação e actualização por Otto Paradis (2024)
