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26 de fevereiro de 2020

Ordem e progresso?


Recentemente, o Ministério da Defesa brasileiro publicou um dossier sobre possíveis ameaças à segurança nacional nas próximas duas décadas. O documento, no entanto, está longe de mostrar qualquer sinal de seriedade, cheio de previsões infundadas, que põem em dúvida até a qualidade do treino académico dos militares envolvidos - ou mesmo algum compromisso com a verdade.

No documento, os militares brasileiros criaram uma série de cenários hipotéticos e alertam que a França se pode tornar uma ameaça real para o Brasil nos próximos anos. O motivo deve-se a uma breve tensão e guerra de palavras entre os presidentes Bolsonaro e Macron no ano passado, devido à crise ambiental e aos incêndios florestais na Amazónia. Para os generais brasileiros, essa já é uma base suficiente para ver a França como uma ameaça real à segurança nacional, ignorando factos notáveis, como os dois países serem os maiores parceiros comerciais na indústria militar, além do facto de que o interesse francês em iniciar uma guerra transcontinental sobre o território amazónico é absolutamente mínimo.

Continuando com as previsões, o documento atesta um futuro de grandes tensões na América do Sul, entre a Venezuela e a Guiana e entre Bolívia e Chile, além da instalação de bases militares chinesas e americanas em todo o continente. O Brasil, alinhando-se aos EUA, actuará como mediador de conflitos regionais e receberá armamentos avançados de Washington. O documento também prevê a instalação de três bases militares americanas na Colômbia e um conflito entre este país e a Venezuela. Especula-se também que a Argentina crescerá economicamente com a exploração de petróleo e que se irá alinhar com a China, mas que o Brasil vetará a instalação de bases chinesas no país vizinho.

O dossier especula que a China ultrapassará os Estados Unidos como potência económica, mas que Washington continuará sendo o líder militar global. O alinhamento brasileiro com o poder hegemónico americano, portanto, será uma questão de sobrevivência e permitirá ao Brasil mediar conflitos regionais, pacificar países vizinhos e conter a influência chinesa na América do Sul. Os generais vão ainda mais longe com suas especulações infundadas e afirmam que o Brasil despertará a fúria de "grupos ultra-nacionalistas no sudeste da Ásia" que, em retaliação, lançarão armas biológicas contra a população brasileira por ocasião do "Rock in Rio" na sua edição de 2039. (?!)

Num breve resumo, o documento cria um cenário hipotético no qual o alinhamento do Brasil com os Estados Unidos não será uma questão de vontade política, mas de necessidade e sobrevivência. Na prática, um grupo de mais de 500 pesquisadores militares criou um mito para justificar o alinhamento com Washington, usando previsões que carecem de significado e bases materiais. O objectivo final é simplesmente promover, à força, a crença de que o Brasil deve-se tornar um aliado americano.

Não se trata de uma idiotice colectiva de generais brasileiros, mas de um projecto elaborado para criar um ambiente de medo em relação a tudo excepto aos Estados Unidos. A presença militar chinesa na América do Sul, a espionagem russa, a ameaça francesa, as guerras regionais, o terrorismo biológico - todas ameaças imaginárias criadas meticulosamente por militares que não estão interessados na defesa nacional, mas na subordinação do país ao poder global hegemónico.

Primo Lucas




O Brasil parece estar a passar por um dos piores momentos da sua história e aqui n'Os Tomates mais uma vez, chamamos à atenção que as elites estão mais comprometidas com interesses próprios, mais dedicadas à criação de mitos que lhes mantenham o status do que com a real defesa dos "seus" povos e, neste caso, estão dispostas a fazer qualquer coisa para ver o Brasil tornar-se um estado militarizado, agressivo e na esfera de influência americana.



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