Florianópolis tornou-se o primeiro município brasileiro “livre de agrotóxicos”.
Uma lei já aprovada e sancionada, proíbe o armazenamento e aplicação de pesticidas de qualquer tipo, e passa a ser um crime passível de multa. Go Florianópolis!
Consta que nos sentiremos tão bem nos sonhos onde as abelhinhas ainda existem.
"Em Portugal os níveis de segurança dos alimentos vendidos estão acima da média da União Europeia. Os números são da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) e revelam que 98,4% dos alimentos produzidos em Portugal estão livres de resíduos de agro-químicos ou com níveis de resíduos dentro dos limites legais.
Esta percentagem compara com a média da Zona Euro que é de 96,2%."
artigo em Vida Rural 98,4% dos alimentos estão livres de agroquímicos
Porém, aqui na quinta, onde até a calda bordalesa é usada muito muito raramente (1 único uso em 2019, em pessegueiros), nestas semanas pós colheitas e a tentar pôr um pouco das tertúlias no blogue, a tentar pôr um pouquinho de tudo no blogue, não pudemos deixar de notar um curioso mito que prevalece mesmo entre os mais bem informados. De que o uso de agro-químicos é moderado na União Europeia comparando-se por exemplo com os Estados Unidos.
Não se iludam. Infelizmente a realidade não é exatamente essa.
Se as políticas europeias se podem caracterizar por
"É seguro provando-se que é seguro";
as americanas são
"É seguro se não se provar que é inseguro",
o que, convenhamos, deixa as pessoas do lado de cá do lago mais descansadas...
mas, se formos então ver o que realmente se passa, verifica-se que em 2000 os Estados Unidos da América aplicavam 2,38Kg de pesticidas por hectare e na europa 4,5 kgs por hectare.
Diferenças nos tipos e densidade de culturas explicam e justificam muito dessa diferença mas o que aqui nos interessa é a quantidade total de pesticidas usados, sendo que as justificações para isso não são de nenhum interesse aqui.
19 anos depois, anos dum suposto acordar das massas para estas questões, o uso de pesticidas nos U.S. diminuiu significativamente??? Não.
Mas não aumentou. Estagnou à volta de 2.2kg por hectare.
Na Europa, há 20 anos o agricultor holandês usava 11kgs agora 9.88Kgs por hectare e o português 6,38kgs agora 5,98kgs por hectare.
O espanhol usava 1,97kgs e agora usa 3kgs por hectare.
A média europeia rondava os 4,5kgs, situando-se actualmente nos 4,1kgs.
Não estranhem então, caros amigos, que artigos muito bons como,
Vida Rural: Controlo de Pesticidas em Portugal
Vida Rural: 98,4% dos alimentos estão livres de agroquímicos,
baseados num estudo que pode ser consultado no site da EFSA, com dados comparativos por país e produto, disponível em quatro idiomas, aqui,
possam revelar o verdadeiro problema, que no fundo e infelizmente, transcende a atual retórica da esperança de que a União Europeia, com os seus standards, conseguiu uma coisa muito boa.
E o problema é que 20 anos de políticas "realmente" muito muito boas não alteraram a trajetória de constante subida do numero de toneladas em vendas de pesticidas.
A União Europeia e os seus estados membros terão algum depósito? Alguém está a comprar pesticidas para não os usar?
Tudo o resto é muito bonito mas... ou melhor, nem sequer é bonito, pois também os números oficiais sobre a prevalência de resíduos nos alimentos, como o dito estudo em 4 idiomas da EFSA, não nos deve deixar descansados.
Na prática e para todos os efeitos estamos a usar toneladas de produtos tóxicos, todos os anos, sempre, sem fim à vista, mas como só 1 % nos chega à boca por via dos alimentos, está tudo bem.
1% com quantidades significativas mas 99% com quantidades tão pequeninas que não se conseguem/querem medir e estamos todos no bom caminho.
Mas os mesmos números revelam que afinal só 50% dos alimentos é que realmente poderão não conter algum resíduo. Os outros 50% contêm definitivamente resíduos, mas muito pouco.
Tirando os tais 1,6% que realmente são terríveis os restantes 98,4% poderão não ter problema nenhum. Só o futuro o dirá.
No futuro com certeza estes químicos serão esquecidos, outros químicos, esses sim muito seguros, outras políticas e outras retóricas, essas sim muito eficazes, mostrarão como tudo se pode resolver desde que todas as águas, todos os alimentos e também o ar contenham o composto químico certo na quantidade correta.
Consta que nos sentiremos tão bem nos sonhos onde as abelhinhas ainda existem.
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23 de outubro de 2019
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