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9 de dezembro de 2019

Pessoas como nós, mas a fingir

Pessoas como nós, em manifestações um pouco por todo o mundo a defender pesticidas e Organismos Geneticamente Modificados.

Cinco mil tractores causaram graves transtornos em Berlim na semana passada quando os agricultores protestaram contra as políticas de protecção ambiental do governo alemão.

Esses protestos visavam os planos do governo alemão para limitar o uso de fertilizantes a fim de combater a poluição por nitratos nas águas subterrâneas e eliminar, progressivamente, o glifosato, até 2023, para proteger a biodiversidade.



Conheça o falso agricultor Willi


Um dos mais activos críticos do governo alemão é o Dr. Wilhelm Kremer-Schillings, ou "Agricultor Willi", como ele mesmo se denomina. Por meio de blogs e campanhas contra restrições de pesticidas, a favor de OGM e em defesa de empresas como a Bayer / Monsanto, ele tornou-se um dos agricultores mais conhecidos da Alemanha.

E o Willi é um homem de acção, não apenas de palavras. Antes do protesto de Berlim, ele liderou agricultores de toda a Alemanha a desenharem grandes cruzes verdes nos seus campos, num protesto altamente visível contra as políticas ambientais que, segundo ele, darão um golpe mortal para o sector agrícola da Alemanha.

Mas, de acordo com um artigo do jornal alemão Taz, um cognome mais adequado para Kremer-Schillings deveria ser "Chemical Willi". Isso porque, apesar de se promover como um pequeno agricultor que trabalha numa "quinta tradicional" no Baixo Reno, a sua carreira envolve muito pouca agricultura e muito trabalho para a industria agro-química.

A Taz descobriu que ele trabalhou na divisão de produtos químicos do Grupo Schering, mais tarde assumido pela Bayer, como gerente de projectos do Betanal - um herbicida suspeito de causar cancro. O "Agricultor Willi" também aconselhou os agricultores sobre pesticidas para a produtora de açúcar Pfeifer & Langen

Ele actuou primeiro como presidente e agora vice-presidente da Buir-Bliesheimer Agrargenossenschaft eG, uma cooperativa agrícola considerável (facturação anual: 120 milhões de euros) que actua fortemente em fertilizantes e pesticidas, como o glifosato.

As cruzes verdes e os protestos de Berlim visavam desafiar os planos do governo de impor restrições a esses produtos químicos agrícolas. E, curiosamente, a empresa de Willi encabeça a lista de patrocinadores aos organizadores do protesto de Berlim.

Mas quando ele lançou seu site "Farmer Willi" e seu livro, nenhuma destas ligações ao agro-negócio e aos agro-químicos mereceu uma menção.



Fingindo em França

O agricultor Willi, infelizmente, está longe de ser o único entre os "agricultores como nós" que se opõem às restrições químicas na agricultura  e/ou promovem a modificação genética.

Um equivalente francês é Vincent Guyot, que foi retratado com destaque nos media franceses como o homem que dá voz ao "desespero" de muitos pequenos agricultores de França com a perspectiva de uma proibição de glifosato. Um artigo do jornal L'Express, por exemplo, enfatizou que Guyot era apenas um camponês comum, que nem sequer era membro de um sindicato de agricultores, muito menos "um lobista da Monsanto" ou de algum outro gigante agro-químico.

Guyot chegou à fama em 2017, depois do diário financeiro Les Echos publicar o seu apelo pessoal contra a proibição de glifosato sob a manchete "Eu, Vincent, agricultor e utilizador de glifosato". Nesta carta aberta, publicada poucos dias antes da União Europeia decidir se deveria aprovar novamente o glifosato, Guyot disse que queria “aproveitar esta oportunidade, gritar uma última vez antes que minha voz e a de meus colegas [agricultores] sejam silenciadas. ”.

E o "grito de desespero" deste agricultor comum, como o Les Echos o chamou, teve tanto impacto que, ao contrário de todos os medos de Guyot, o glifosato não foi proibido na UE, e Les Echos orgulhosamente republicou sua apaixonada defesa do produto químico.

Mas em maio deste ano, o jornal teve que retirar "Eu, Vincent, agricultor e utilizador de glifosato" do seu site depois de os documentaristas franceses Envoyé Spécial revelarem que o apelo sincero de Guyot era realmente o trabalho de uma agência de relações públicas que trabalha para a Monsanto, fabricante do Roundup, o herbicida altamente lucrativo à base de glifosato.






Aqui n'Os Tomates, como já sabem, não pretendemos chegar a grandes conclusões. Deixamos isso para vocês. 
Mas, como sempre, perguntamos:


Quantas vezes temos que ver como os truques são feitos para deixarmos de acreditar em magia?



Veja também, por favor, nos EXTRAS d'Os Tomates, mais exemplos de "pessoas a fingir", neste caso em África, na Índia e EUA. 

E claro, espreite sempre o futuro com perguntas, também aqui
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